O MUNDO SOMOS NÓS

O Céu e a Terra na Educação

Ivone Apolinário

Hoje pensei em escrever sobre a força do céu e da terra na educação: sobre as polaridades, os opostos complementares – yin e yang, sobre o seu simbolismo e como o podemos aplicar na prática no dia a dia com as crianças.

Busquei ir à raiz, criando um texto mais filosófico, pois sabemos que a filosofia é a raiz de tudo. Por isso, a intenção aqui é também despertar cada mãe e pai para a importância da observação, reflexão, questionamento, de colocar hipóteses, fazer experiências e observar os resultados. Para que a vida evolua, para que exista transformação.

Com as crianças, como na vida, nada é estanque, tudo muda e quando tentamos agarrar a segurança de uma conquista eis, que… Puf! Regressamos ao estado de “não sei”, ao estado de interrogação e vazio. Quando estamos vazios podemos aprender, por isso, espero que este texto possa contribuir para o desenvolvimento de uma mente mais ágil, atenta e astuta em cada educador!

Sabendo que as fórmulas têm resultados limitados, tentamos promover o trabalho pessoal e autoconhecimento de cada mãe e pai.

O conceito de céu e terra abordado neste artigo nasceu na civilização chinesa pré-moderna e enfatizou a harmonia na relação entre o céu, a terra e a humanidade. Na filosofia taoísta o universo que nos rodeia é um todo perfeito no qual todos os opostos não são apenas inseparáveis, mas realmente necessários.

“Não podemos ser verdadeiramente ativos (profissionalmente, socialmente, fisicamente) sem períodos de descanso adequados. Não compreenderemos a verdadeira força se não nos permitirmos ser vulneráveis. Muitas das vitórias que alcançamos não teriam sido possíveis sem os fracassos que nos moldaram ao longo do caminho. Não podemos ser verdadeiramente generosos com os outros se não reservarmos tempo para nós mesmos.

Esta crença na necessidade dos opostos é representada pelo conhecido símbolo Yin Yang. Yang simboliza, entre outras coisas, atividade, expansão, luz e calor, e geralmente é representado em branco, enquanto o seu oposto perfeito, Yin, simboliza quietude, contração, escuridão e frio, e geralmente é representado em preto. Nenhuma destas qualidades existiria ou teria qualquer significado sem a existência dos seus opostos, e o símbolo do Yin-Yang como um todo representa a interdependência dinâmica dos dois extremos.”

Yin Yang, Céu e Terra, frio e quente, escuro e claro são sempre relativos; são opostos, complementares, interdependentes, controlam-se mutuamente e transformam-se um no outro. Nada é só Yin ou só Yang.

Em termos simbólicos e energéticos, o céu representa o pai e a terra a mãe. O pai, o céu, dá sentido de direção, propósito, firmeza, intensidade, valores, princípios, orientação, rigor, firmeza, assertividade, disciplina. A mãe, a terra, dá e representa, nutrição, profundidade, suavidade, apoio, cuidado, amor, carinho, suavidade, rendição flexibilidade.

Hoje em dia as funções e os papéis que desempenhamos não são os mesmos que os tradicionais. Não é intenção deste artigo abordar o tema dos papéis que desempenhamos mas antes as funções energéticas naturais, que podem, e são frequentemente desempenhadas tanto pelos pais como pelas mães.

Se olharem para os vossos filhos com atenção, o que observam? Mesmo que sejam muito pequeninos, é possível observar as suas necessidades, verdade?

Estão mais abertos ou fechados? Mais soltos ou mais tensos? Sorridentes ou cabisbaixos? Gordos ou magros? Cooperantes ou rebeldes? Sérios ou brincalhões? Parados ou eléctricos?

Em que momentos do dia? O que pode ter causado um comportamento como uma birra? Será que a criança cooperou demais durante o dia? Ou será que não percebeu os limites dos lugares e das pessoas?

Dorme tranquila ou agitada? O sono é yin e os ecrãs são yang. O que faz e come a criança antes de se deitar?

Está preparada para a próxima fase? Estamos a deixar a criança crescer? Ou os nossos receios fazem com que criemos justificações para manter a criança num estado que controlamos? Porque precisamos nós também de tempo, de nos adaptarmos? Ou a criança ainda precisa de mais tempo?

Os nossos filhos andam distraídos, com a cabeça no ar, a imaginar, a sonhar? Será distração ou atenção? Atenção ao que não lhes pedimos, mas ao mundo deles? Ou ao que está à volta (mas não os sapatos para calçar)?

É normal, num certo sentido, que as crianças estejam ainda muito “no céu” e a “aterrar” aqui no planeta. É esse bocado de luz e céu que ilumina as nossas vidas e é importante que elas não se desliguem da fonte, do transcendente, do todo! Agora, estamos aqui também para os ajudar a viver no planeta, no exterior, a perceber como isto funciona. O problema é que se se desligarem completamente da força do céu, tornam-se meros “funcionários” – funcionam, cooperam, mas perdem a conexão à essência. Por outro lado, se estiverem sempre com a cabeça a mil à hora, muito estimulados (por exemplo por ecrãs), esse tipo de distração não representa a força do céu, mas sim a força do pensamento, que já é algo material, da terra. Isso já é dispersão, falta de atenção. É foco num sentido, não vendo o outro. Estas crianças precisam de mais céu, orientação, de “pai”, de uma atividade em família na natureza, por exemplo, de uma arte marcial ou Yoga, que as ajude na atenção, presença, calma no pensamento.

Num problema da saúde, o papel da energia terra, mãe, o cuidado, ainda é maior. Nestas alturas a criança precisa de pouco estímulo, de cooperar menos, de estar mais consigo mesma, sem ser tão requisitada, de ficar mais sossegada, no seu canto, no seu ambiente, em casa, de preferência.

De que precisam as crianças mais pequenas, até aos 11-12 anos e sobretudo até aos 7 anos? Precisam de muita terra (céu, habitualmente, elas já têm, ainda estão bem ligadas ao céu). De muitos cuidados, nutrição, suporte, carinho, amor. Só o colo da mãe já nutre. Isso dá-lhes saúde para se expandirem no mundo. A observação de perto, pela mãe, permite-lhe fornecer à criança os “ingredientes” que ela necessita em cada momento.

(Atenção: carinho, amor, ternura, não é dizer sim a tudo ou falar com voz de desenho animado com a criança para “mimar” (no mau sentido da palavra) a criança. É ser, ter estes nutrientes em si e saber passá-los com sua presença, palavras e ações. As crianças querem ver quem são os pais na verdade, na sua autenticidade. As crianças querem descobrir como funciona o mundo e para isso precisam de conhecer ser humanos reais e não personagens que criamos para lhes agradar ou para os assustar.)

O pai está presente, colabora, dá o seu contributo para o equilíbrio familiar, apesar de ainda não ter chegado o momento auge em que a criança precisa mais de si.

A cada dia que passa, a criança vai precisando cada vez mais do pai, todos os dias mais, à medida que cresce.

Atenção, isto não significa que o pai não tenha uma missão de enorme importância na primeira infância! Essa missão pode envolver também uma energia mais feminina, da força da terra, do cuidar, se desejado e/ou necessário. Não obstante, a energia do céu, do pai é sobretudo garantir que a família não perde o norte, a segurança do lar, para que tanto mãe como criança se sintam tranquilas. Na sociedade moderna, sem tantos perigos, a mulher pode fazer quase tudo. No entanto, é frequente ver mulheres esgotadas numa luta desenfreada pela sobrevivência. Isto cria um desgaste tal que a mulher deixa de conseguir nutrir a família, fica amargurada, zangada e nem pai nem mãe cumprem a sua função. Se mãe e pai podem trocar de papel? Podem, claro, conforme as circunstâncias de cada um! Agora, a função biológica deveria ser alimentada da forma que requerer menos esforço, como é habitual na natureza.

No caso de famílias monoparentais, os pais/mães podem ter de desempenhar um outro papel, de mãe ou pai, mas a sua função será sempre a sua função. É quase como algo já destinado, do qual não se pode fugir. É o seu propósito, ponto forte, é a biologia a funcionar, digamos. Como seres humanos racionais e com livre arbítrio podemos sempre escolher de outra forma, claro!

A partir dos 11-12 anos, as crianças precisam muito mais do pai (a partir dos 7 começa a transição lenta). A mãe passa a ser o chão, que está lá mas não se vê e todo o foco da criança vai para o pai, o herói, o orientador.

As crianças ligam pouco ao que dizemos e muito mais ao que somos e fazemos, ao nosso exemplo.

Em termos práticos, cada caso é um caso e é possível estudar as particularidades yin yang, céu e terra de cada situação.

Todos nós, tenhamos ou não pais vivos ou connosco, temos à nossa disposição essas duas forças para nos ajudarem na vida. Podemos representar e substituir o pai por uma figura de referência e a mãe por alguém que nos alimenta e cuida.

Porém, é mais fácil quando a sua representação é assumida pelos pais na nossa infância, porque naturalmente estamos equipados biologicamente e energeticamente para essa função. E E é claro que a mãe também pode dar “céu”, a orientação, por exemplo e o pai “terra”, cuidado, pois ninguém tem só uma força ao seu dispor, ninguém é só masculino ou feminino, apesar do género biológico.

Quando por algum motivo isto não é possível, com uma educação consciente, seja quem for que guie a criança pode ajudá-la a conectar-se com a força do céu, a orientar-se no seu propósito, usando a força do universo para ser e sonhar, e com a força da terra, para concretizar, materializar o sonho. No fundo a vida é um processo do céu para a terra, do invisível para o visível, do nada para a matéria.

O ideal não existe, o equilíbrio perfeito não existe. A intenção deste texto é ajudar o leitor a observar cada situação como única para que a sua ação seja na direção do equilíbrio. Um exemplo é um conflito em que a criança está a berrar (yang) e o adulto começa a gritar também (mais yang). Nesta situação, precisamos de yin, de calma, de conforto, de energia feminina, receptiva, de mãe.

É uma perspetiva e pode ser também uma ferramenta interessante para percebermos, observarmos e ajudarmos os nossos filhos.

Se gostarem e quiserem saber mais, podem estudar mais sobre este tema na teoria dos 5 elementos da Ancestral Medicina Chinesa, um sistema simbólico simples que funciona muito bem e que nos ajuda a perceber os desequilíbrios emocionais/saúde no sistema/família (outro sistema interessante é a constelação familiar, que vê tudo isto de outra perspetiva, mas também muito útil).

O equilíbrio perfeito é impossível, mas é possível andarmos lá à volta, com alguma atenção e presença.

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