O MUNDO SOMOS NÓS

Sobre Educação – Pais e Professores – 2ª parte

J. Krishnamurti

texto de J. Krishnamurti, extraído do livro “A Educação e o Significado da Vida”

Alguma vez os pais perguntam a si mesmos por que razão tiveram filhos? Será para perpetuação do nome, por razões de herança? Quiseram ter filhos para seu próprio prazer, para satisfação das suas necessidades emocionais? Se assim for, então as crianças não passam de simples projecção de desejos e medos dos seus progenitores.

Poderão os pais afirmar com certeza que amam os seus filhos quando, ao educá-los erradamente, encorajam a inveja, a inimizade e a ambição? Será o amor aquilo que estimula os antagonismos nacionais e raciais a iniciarem guerras, destruição e enormes desgraças, que atira homem contra homem em nome das religiões e das ideologias?

Muitos pais empurram os filhos para os caminhos do conflito e do sofrimento, permitindo-lhes não apenas ser submetidos à educação incorrecta mas também pela maneira como vivem as suas vidas; e, depois, quando a criança cresce e sofre, rezam por ela ou tentam encontrar desculpas para o seu comportamento. O sofrimento dos pais pelos seus filhos é uma forma de autocomiseração possessiva que só acontece quando não existe amor.

Se os pais amassem os seus filhos, não seriam nacionalistas, não se identificariam com nenhum país; a adoração do Estado gera guerras, que matam ou mutilam os seus filhos. Se os pais amassem os seus filhos, tentariam descobrir qual é o melhor relacionamento com o que julgamos pertencer-nos; o instinto possessivo atribui à propriedade um enorme e falso significado, o qual está a destruir o mundo. Se os pais amassem os seus filhos, eles não pertenceriam a nenhuma religião organizada; pois o dogma e a crença dividem as pessoas em grupos conflituosos, criam antagonismos entre os seres humanos. Se os pais amassem os seus filhos, eles afastariam para bem longe a inveja e a incompreensão, e alterariam fundamentalmente a estrutura da sociedade actual.

Enquanto desejarmos que os nossos jovens tenham poder, que ocupem mais e melhores posições, para que tenham mais e mais sucesso, é certo que não temos amor nos nossos corações; a adoração do sucesso incentiva o conflito e a infelicidade. Amar os nossos filhos implica estarmos em completa comunhão com eles; é fazer com que tenham a educação correcta, que os ajudará a ser sensíveis, inteligentes e integrados.

A primeira coisa que o professor tem de perguntar a si mesmo, quando decide que quer ensinar, é: «Que significa ensinar?». Irá ele ensinar as matérias básicas da forma habitual? Quererá ele condicionar a criança a tornar-se mais um dente da roda dentada que é a máquina social? Ou vai ajudá-la a ser um indivíduo completo, criativo, crítico dos valores falsos? Se o educador quer ajudar o estudante a examinar e a compreender os valores e as influências que o rodeiam, e das quais faz parte, não deverá também ele estar consciente deles? Poderá aquele que é cego ajudar os outros a atravessar para a outra margem?

Certamente que o professor terá de ser o primeiro a ver? Terá de estar constantemente alerta, intensamente consciente dos seus próprios pensamentos e sentimentos, ciente dos seus condicionamentos, das suas actividades mentais e das suas reacções; e dessa atenção nascerá inteligência e também uma transformação radical no seu relacionamento com as pessoas e as coisas.

A inteligência não tem nada a ver com o ficar-se aprovado em exames. Ela é percepção espontânea que torna o homem livre e forte. Para se despertar a inteligência na criança temos de, primeiro, ser nós a saber o que é a inteligência; como poderemos nós pedir a uma criança que seja inteligente se nós mesmos continuamos com falta dela em muitos dos nossos actos? O problema não está apenas nas dificuldades da criança, está também em nós: os medos acumulados, a infelicidade e as frustrações que nos acompanham. Tendo em vista ajudar o jovem a ser inteligente, temos de deitar abaixo, dentro, de nós esses obstáculos que nos tornam apáticos e insensatos.

Como poderemos nós ensinar as crianças a não procurarem segurança pessoal, se nós próprios a buscamos? Que possibilidade de libertação haverá para a criança se nós, como pais e professores, não estamos inteiramente vulneráveis à vida, se nós erguemos muros protectores em volta de nós mesmos? Para se descobrir o verdadeiro significado desta luta pela segurança, que causa tanto caos no mundo, temos de começar por acordar a nossa própria inteligência estando atentos ao nosso processo psicológico; temos de começar por questionar todos os valores que nos enclausuram.

Não deveríamos continuar, distraidamente, a deixar-nos moldar pelo padrão que nos condiciona desde crianças. Como poderá haver harmonia no indivíduo, e na sociedade, se não nos compreendemos a nós mesmos? Se o educador não se compreender a si mesmo, se não descobrir as suas reacções condicionadas e começar a ficar liberto dos valores convencionais, como poderá ele despertar a inteligência na criança? E se ele não for capaz de acordar a inteligência no estudante, então qual é a sua função?

Só através da compreensão das características do nosso próprio pensamento e sentir é que estamos em condições de ajudar a criança a ser um indivíduo livre; e se o educador estiver intensamente interessado nisso, ele estará extremamente atento não apenas à criança mas também a si mesmo.

Poucos de nós observamos os nossos pensamentos e sentimentos. Se eles forem de baixa qualidade, não compreendemos o seu completo significado; tentamos, sim, reprimi-los ou afastá-los. Não estamos atentos, de um modo profundo, àquilo que somos; os nossos pensamentos e sentimentos são estereotipados, automáticos. Aprendemos uns tantos assuntos, juntamos alguma informação e tentamos, depois, passar isso para as crianças.

Mas se estivermos vivamente interessados, não só apenas tentaremos saber que experiências em educação se têm feito em todo o mundo como também temos de estar certos sobre qual é a nossa abordagem a toda a questão da educação; temos de nos perguntar o porquê e qual o motivo que nos levam a educar as crianças e a nós próprios; temos de investigar a questão do sentido da existência e a do relacionamento do indivíduo com a sociedade. Claro que os educadores têm estar atentos a estes problemas e esforçarem-se por ajudar a criança a descobrir a verdade daquilo que ela é, sem projectar sobre ela as suas próprias idiossincrasias e hábitos de pensar.

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