O MUNDO SOMOS NÓS

Sobre Educação – Pais e Professores – 4ª parte

J. Krishnamurti

texto de J. Krishnamurti, extraído do livro “A Educação e o Significado da Vida”

Qualquer relacionamento deveria ser um acto educativo nos dois sentidos; e como o isolamento protector fornecido pelo conhecimento, pela realização pessoal, pela ambição, apenas alimenta a cobiça e o antagonismo, o educador correcto deverá transcender esses muros com que habitualmente se rodeia a si mesmo.

Visto que ele se entrega todo à liberdade e à integração do indivíduo, o educador correcto é profunda e verdadeiramente um homem religioso (NOTA RODAPÉ ). Não pertence a nenhuma seita nem a qualquer religião organizada; está livre de crenças e rituais, pois sabe que estas são ilusões, fantasias, superstições projectadas pelos desejos daqueles que as manifestam. Ele sabe que a Verdade só acontece quando existe autoconhecimento e, portanto, liberdade.

NOTA DE RODAPÉ

Krishnamurti utiliza o termo «religioso» não no sentido que lhe é dado pelas religiões estabelecidas (com dogmas, hierarquias, rituais), mas sim com o significado de relação directa com a dimensão sagrada e eterna da vida, de alguém que busca a Verdade e a ligação à essência de tudo o que existe. («Religião», do latim «religare» (religar).

«… religião é juntar toda a energia para se investigar algo, para investigar se existe alguma coisa sagrada. Não se trata aqui da religião da crença, dos dogmas, da tradição ou dos rituais com toda a sua montagem hierárquica. Nós usamos a palavra «religião» no sentido de juntarmos toda a energia, pois é com essa energia que estaremos em condições de investigar se existe uma verdade que não seja controlada, moldada ou poluída pelo pensamento.». (J. Krishnamurti, Truth and Actuality, London, Victor Gollancz Ltd, 1977).

As pessoas que não têm graus académicos são muitas vezes os melhores professores porque têm disposição para experimentar; não sendo especialistas, estão interessadas em aprender, em compreender a vida. Para o verdadeiro professor, ensinar não é uma técnica, é o seu modo de vida, a sua vocação; como um grande artista, ele preferiria passar fome a desistir do seu trabalho criativo. Se não se tiver esta ardente vontade de ensinar, o melhor é não se ser professor. É da maior importância que cada um descubra por si mesmo se possui esse dom, e não meramente mergulhar no ensino só porque isso pode ser um meio de ganhar a vida.

Enquanto o acto de ensinar for visto como uma profissão, um meio de subsistência, e não uma vocação dedicada, existem condições para se abrir um enorme abismo entre o mundo e nós mesmos: a nossa vida pessoal, doméstica, e o nosso trabalho permanecem separados e distintos. Se a educação for entendida como um emprego, igual a todos os outros, o conflito e a inimizade entre os indivíduos e entre as várias classes da sociedade são inevitáveis; haverá crescente competição, perseguição impiedosa das ambições pessoais e o estabelecimento de divisões nacionais e raciais, as quais são geradoras de antagonismo e guerras intermináveis.

Mas se nos dedicarmos a ser educadores verdadeiros, sucede que já não contribuiremos para o levantamento de barreiras entre a vida pessoal e a vida escolar, pois estamos, seja em que lugar for, sempre preocupados com a liberdade e a inteligência. Teremos um respeito igual tanto pela criança pobre como pela criança rica, olhando cada criança como um indivíduo com o seu temperamento particular, a sua hereditariedade, sonhos. Não estaremos interessados só com a sala de aula, só com o poderoso ou com o fraco, mas fundamentalmente com a liberdade e a integração do indivíduo.

A entrega à educação correcta tem de ser inteiramente voluntária. Não deverá ser resultado de qualquer persuasão, ou de esperança em ganhos pessoais; e deverá estar limpa dos medos que surgem do desejo de sucesso e realização pessoais. A identificação com o sucesso ou o falhanço de uma escola está ainda dentro do campo das motivações pessoais. Se ensinar for uma vocação, se olharmos para a educação correcta como uma necessidade vital do indivíduo, então não permitiremos que sejamos encurralados ou desviados pelas nossas ambições ou pelas dos outros; encontraremos tempo e oportunidade para esta tarefa, que seja gerida sem esperar a concessão de prémios, honra ou fama. Ao mesmo tempo, todas as outras coisas – família, segurança pessoal, conforto – tornar-se-ão de segunda linha.

Se estivermos intensamente interessados em ser verdadeiros professores, vamos estar sempre insatisfeitos, não com um determinado sistema educativo, mas com todos os sistemas, porque vemos que nenhum método educativo pode libertar o indivíduo. Os métodos e os sistemas podem condicionar o indivíduo a aceitar um conjunto diferente de valores, mas não o conseguem libertar.

Cada um tem de estar muito atento para que não caia em determinado sistema pessoal que a mente tenha inventado. Ter um padrão de conduta, de acção, é algo conveniente e seguro, e este é o motivo por que a mente se abriga nas suas formulações. Estar em permanente alerta dá trabalho e é exigente, enquanto inventar e seguir um método não requer reflexão.

A repetição e o hábito induzem a mente a ser apática; é preciso um choque para que ela acorde, ao qual chamamos «problema». Tentamos resolver este problema de acordo com as nossas velhas explicações, justificações e condenações, as quais põem, de novo, a mente a dormir. A mente é apanhada constantemente nesta espécie de letargia, e o verdadeiro educador não apenas tenta, dentro de si, pôr-lhe fim como também ajuda os seus estudantes a fazer o mesmo.

Algumas pessoas poderão perguntar: «Como se chega a ser um educador verdadeiro?». Claro que perguntar «como» indica, não uma mente livre, mas uma mente que está receosa, que busca uma vantagem, um resultado. A esperança e o esforço desenvolvidos no sentido de se ser alguém faz a mente conformar-se ao objectivo desejado, enquanto a mente livre está em constante vigilância, aprendendo e, portanto, quebrando os obstáculos que ela própria projectou.

A liberdade está no início, não é algo que se ganha no fim. No momento em que queremos saber o «como», confrontamo-nos com dificuldades inultrapassáveis, e o professor que dedica a sua vida à educação transformadora nunca faz este tipo de perguntas, pois sabe que não existe nenhum método por meio do qual se chega a ser um verdadeiro educador. Se se está vivamente interessado, não se pergunta por um método que assegure o resultado desejado.

Poderá algum sistema tornar-nos inteligentes? Podemos passar através das mós trituradoras de um sistema, adquirir diplomas, mas será que isso nos transformará em educadores, ou, por outro lado, nos tornaremos em simples personificação desse mesmo sistema? Buscar recompensa, ser chamado de «professor extraordinário», é desejar ansiosamente o reconhecimento social e os aplausos; sendo agradável ser apreciado e encorajado, se disso se depende para continuar o seu interesse, então essa adulação torna-se uma droga que depressa nos leva à exaustão. Esperar elogios e estímulos revela falta de maturidade.

Para se criar alguma coisa nova, tem de haver atenção e energia, não disputas e argumentações estéreis. Se nos sentimos frustrados no nosso trabalho, então o aborrecimento e o cansaço aparecem de imediato. Se não estamos interessados, não deveríamos obviamente continuar a ensinar.

Por que motivo há tanta falta de interesse vital entre os professores? O que os leva a sentirem-se frustrados? A frustração não é o resultado de se ser forçado pelas circunstâncias a fazer isto ou aquilo; ela surge quando não sabemos, por nós mesmos, o que realmente fazer. Estando confusos, somos empurrados de um lado para o outro, e finalmente fixamo-nos em algo que não nos diz nada.

Se ensinar for a nossa verdadeira vocação, talvez nos sintamos temporariamente frustrados porque não vemos uma saída para a actual confusão educativa; mas no momento em que vemos e compreendemos as implicações da educação correcta, recuperaremos o necessário impulso e entusiasmo. Não se trata de uma questão de vontade ou de decisão, mas de percepção e compreensão.

Se ensinar correctamente é a nossa vocação, e se percebemos a extrema importância da educação correcta, não podemos fazer nada senão sermos de facto os educadores verdadeiros. Não há necessidade de seguir métodos. O próprio facto da compreensão de que a educação correcta é indispensável para se atingir a liberdade e integração do indivíduo provoca uma mudança radical em nós. Se estamos cientes de que a felicidade e a paz para o ser humano são possíveis através da educação correcta, então entregaremos, de um modo total, a nossa vida e energia a essa função.

Ensinamos porque queremos que a criança se enriqueça interiormente, o que terá como resultado ela atribuir o valor certo às coisas que possui. Sem riqueza interior, as coisas do mundo tornam-se demasiado importantes, o que conduz a várias formas de destruição e infelicidade. Ensinamos para encorajar o jovem a encontrar a sua verdadeira vocação e a evitar aquelas ocupações que originam antagonismo entre um homem e outro homem. Ensinamos para ajudar o jovem a percorrer o caminho do autoconhecimento, sem o qual não haverá paz nem felicidade. O nosso ensinar não tem nada a ver com autorrealização egoista, mas, sim, com despojamento do ego.

Sem a educação correcta, a ilusão é vista como realidade, mergulhando o indivíduo no conflito interior, levando este para a esfera dos relacionamentos com os outros, que são a sociedade. Ensinamos porque vemos que apenas o autoconhecimento, e não os dogmas e os rituais da religião organizada, dá a possibilidade à mente de se tornar serena; vemos que a Criação, a Verdade só acontece quando o “eu” e o “meu” são transcendidos.

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