Não há Liberdade sem Estrutura

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Vivemos num tempo peculiar da história da educação. Durante muitas gerações, a estrutura esteve associada à rigidez, à autoridade excessiva, ao controlo e à obediência cega. Horários rígidos, regras absolutas e relações hierárquicas abusivas marcaram a experiência de muitas crianças e adultos.

Com a intenção legítima de fazer diferente e melhor, as últimas gerações começaram a colocar em causa quase todas as estruturas existentes. Questionamos a escola, a família, as regras, os limites, as rotinas e as formas tradicionais de autoridade. Esse questionamento permitiu-nos criar relações mais respeitadoras, reconhecer a individualidade da criança e abandonar práticas educativas que não serviam verdadeiramente o desenvolvimento humano.

Só que, por vezes, na tentativa de corrigir os excessos do passado, acabamos por rejeitar não apenas a rigidez, mas a própria estrutura. Sem estrutura, a liberdade transforma-se facilmente em confusão.

A criança precisa de referências estáveis para crescer.  Precisa de saber quando acorda, quando come, quando descansa, quando trabalha, quando brinca e quando termina uma atividade. Precisa de limites claros para poder explorar o mundo com segurança. Precisa de adultos que consigam ser guias, âncora, mesmo quando surgem resistências, frustrações ou emoções difíceis.

O mesmo é verdade para os adultos. Quando perdemos a estrutura, tornamo-nos facilmente reféns dos nossos estados internos. Um sentimento transforma-se numa verdade absoluta, uma emoção momentânea passa a definir toda a realidade, um pensamento repetido passa a ser uma crença. As sensações do corpo e as vozes da mente começam a dirigir a nossa vida.

Quando abandonamos a obediência sem compreender o que a deve substituir, caímos frequentemente na rebeldia, no conflito ou na incapacidade de cooperar. A verdadeira alternativa à obediência é a responsabilidade.

Nessas circunstâncias, torna-se fácil encontrar justificações para tudo o que fazemos (defesas) e culpados para tudo o que nos acontece. A responsabilidade desloca-se para o exterior: para a escola, para os pais, para os filhos, para o governo, para a sociedade, para o mundo.

Aprender implica um movimento diferente. Um movimento que se vira de fora para dentro. Assumir responsabilidade pessoal não significa culpar-se nem carregar o peso de tudo. Significa reconhecer a nossa participação naquilo que vivemos. Significa observar os nossos pensamentos, emoções, escolhas e comportamentos sem fugir deles. Significa perguntar: qual é a minha parte nesta situação? O que posso aprender? O que posso fazer agora?

A responsabilidade pessoal começa quando deixamos de perguntar apenas o que o mundo nos está a fazer e começamos a perguntar o que estamos nós a trazer ao mundo.

Esta mudança de perspetiva é talvez uma das mais difíceis e das mais libertadoras. Não significa culpa nem autoacusação mas antes reconhecer que participamos naquilo que vivemos através das nossas escolhas, atitudes, pensamentos e ações. 

Mas a verdade é que a responsabilidade não nasce da obediência. Uma criança que faz algo apenas porque lhe mandaram fazer aprende dependência da autoridade. Uma criança que participa porque compreende que faz parte de uma família, de um grupo ou de uma comunidade aprende responsabilidade.

Por isso, educar para a responsabilidade não é controlar mais nem exigir mais. É permitir que a criança participe gradualmente na vida real: arrumar os seus objetos, cuidar dos seus materiais, ajudar numa refeição, contribuir para o bem-estar da família, cumprir acordos, assumir compromissos e enfrentar as consequências naturais das suas escolhas.

Não porque os adultos precisem de ajuda, mas porque todos os seres humanos precisam de sentir que pertencem e que contribuem. Quando apenas recebemos, algo em nós enfraquece. Quando contribuímos, cresce um sentimento de dignidade, competência e significado.

Mas esta aprendizagem não pode ser exigida às crianças se os adultos não a viverem primeiro. Os filhos aprendem muito mais através do ambiente do que através das palavras. Observam como lidamos com as dificuldades, os conflitos, os erros, os compromissos e as responsabilidades do dia a dia.

Talvez por isso a educação seja, antes de tudo, um trabalho sobre nós próprios.

Quando existe desordem dentro de nós, essa desordem manifesta-se inevitavelmente nas famílias, nas escolas e na sociedade. Quando existe clareza, responsabilidade e atenção, essas qualidades também se espalham à nossa volta.

A estrutura tem aqui um papel essencial. Não como um instrumento de controlo, mas como um suporte para o desenvolvimento da responsabilidade. As rotinas, os limites, os acordos e os compromissos criam o contexto necessário para que crianças e adultos possam aprender a responder à vida com mais consciência. A estrutura não é o objetivo, mas sim algo sólido sobre o qual assenta a nossa vida, como o solo fértil onde a responsabilidade pode crescer.

Nos dias desafiantes que correm, a estrutura que temos vindo a abandonar volta a bater à porta das nossas vidas. Se não a acolhermos conscientemente, a própria vida acabará por impô-la, individual ou coletivamente, por vezes de forma rígida e até autoritária. Talvez o desafio do nosso tempo seja encontrar o caminho do meio: sermos como uma árvore que se move com o vento sem se partir, porque os seus ramos são flexíveis, mas o tronco é firme e as raízes profundas.

Ivone Apolinário
Coordenadora geral OMSN

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