O que são as emoções?

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Este mês decidimos trazer este tema tão popular hoje em dia. Vamos falar sobre emoções.

O significado etimológico da palavra é “mover para fora” ou “colocar em movimento”. Podemos dizer que Emoção significa energia em movimento. Por vezes, procurar a origem das palavras ajuda-nos a perceber realmente o que elas significam. Estamos habituados a falar tanto sobre o tema, muitas vezes sem parar para refletir sobre o que o mesmo invoca. Ir à origem da palavra pode-nos ajudar a perceber e a lidar melhor com as nossas emoções e com as emoções das crianças.

No nosso corpo, a energia precisa de fluir e nós temos sensações físicas quando temos uma emoção agradável ou desagradável. Então, a emoção é como uma sensação que temos no corpo e que tem de vir para fora.

Quando uma criança está a chorar, temos muitas vezes tendência para ir para um de dois extremos. Aliás, em quase tudo, na sociedade, em quase tudo mesmo, temos tendência para ir para os extremos. Porquê? Porque são mais fáceis de compreender. São muito mais claros por serem tão ampliados. Os extremos têm uma estrutura mais definida – faz assim, não faças assim. E é muito mais difícil estar no meio. Mas, como temos ouvido toda a nossa vida, a virtude está no meio e aqui isso parece ser verdade, também.

Portanto, quando as crianças choram, temos tendência para fazer duas coisas extremas. O que foi  normal até há bem pouco tempo foi reprimir a criança – não queríamos ouvir o choro, impediamos o choro, impediamos a emoção, sobretudo se se tratassem de emoções desagradáveis. Até quando eram emoções como a euforia, muito extremas, tinhamos tendência para querer calar a criança porque era incomodativo, porque era ruído, porque “tens de te comportar”, porque “tens de obedecer”, etc. Isso foi o que conhecemos até agora. Estamos, desde há algum tempo, décadas talvez, num momento histórico em que frequentemente fazemos o outro extremo, que é deixar a criança chorar – deixar sentir, deixar viver, deixar experienciar, deixar a energia fluir, deixar a emoção fluir, durante quanto tempo for preciso. Queremos estar ali para a criança. Fazer diferente do que os nossos pais fizeram.

É preciso percebermos, antes de mais, de onde vem a emoção, o que é que levou a criança a expressar aquela emoção. Porque antes de gerirmos qualquer coisa precisamos de a conhecer, de perceber o que é que está a acontecer e não colocar numa caixinha escondida dentro de nós, nem fazer o mesmo com a criança.

Parar uma emoção é contraproducente, mas alimentar a emoção é também contraproducente. Estamos a ver os dois extremos: parar a emoção, assim como alimentá-la.

Precisamos, antes de mais, de perceber de onde é que ela vem, o que é que está por detrás daquela emoção.

Muitas vezes, aquilo que a criança expressa na emoção não é bem o que ela quer dizer. Está a expressar uma emoção sobre qualquer situação que aconteceu, mas a emoção vem de uma outra situação. Não é aquela situação que está a fazer a criança chorar, mas um conjunto de outras situações anteriores.

É preciso observarmos muito bem as crianças e conhecê-las, sobretudo para apanharmos as tendências de manifestação, neste caso das emoções, mas também podíamos estar a falar de comportamentos. Os comportamentos são uma expressão das crianças e, para percebermos porque é que determinados comportamentos acontecem, temos de ir mais atrás, tentar perceber as causas dos comportamentos.

Independentemente disto, é importante que a emoção flua. Parar a emoção não vai resultar, é um movimento que surge e deve seguir o seu curso até desaparecer, naturalmente, depois de ser vivido. Para a emoção desaparecer naturalmente, depois de vivida, como é suposta, temos de estar autorregulados, presentes, evitando tomar as dores da criança. Ter compaixão e empatia não significa carregar o peso dos outros e o sofrimento das crianças é delas, é necessário para crescerem e se adaptarem. Não quero dizer que vamos criar dificuldades de propósito mas se elas surgem, vamos vê-las com uma oportunidade para trabalharmos com os mais novos. Também é importante saber “avançar” quando é preciso, para não ficarmos a nutrir algo passageiro, que se manifesta e desaparece. Ficar escravo das emoções é perigoso para uma vida sã. As pessoas “emocionais” muitas vezes usam a violência fisica e verbal para se expressarem. Nestes casos, não souberam vive-las, compreender a sua mensagem e larga-las. Outras vezes ficam muito tempo tristes e deprimidas, porque não buscam a verdade detrás das emoções, obrigando-se assim a revive-las sem parar. 

Podemos tentar observar e descobrir as causas das emoções e dos comportamentos das nossas crianças, mas, a certa altura, à medida que crescem, é muito importante ajudarmos a criança a fazer também isso, a fazer essa auto-observação. Para conseguirmos ajudar a criança nessa auto-observação, nós, como pais e como educadores, temos de ser experientes também nisso, em conseguirmos observar em nós mesmos as emoções e deixá-las passar.

Se reprimimos as nossas emoções, como pais ou educadores, ou se não conseguimos parar para observar o que sentimos e reagimos impulsivamente, vai ser difícil ajudarmos as crianças. Quando surge uma emoção ou acontece uma situação em que temos raiva ou ficamos revoltados, se nós próprios não pararmos para perceber de onde é que isso vem, em vez de empurrarmos para fora, culparmos, julgarmos e projetarmos o que sentimos, nada mudará.

E porque as crianças são também gatilhos para as nossas emoções. Elas estão aqui para nos ensinar a gerir o que sentimos, sendo quase como um espelho – uma coisa reflete a outra. 

Um exemplo simples: “Roubaram-me o lápis!”

Imaginem uma criança que está a pintar com um lápis de cor e um amigo ou um irmão lhe tira o lápis da mão ou da sua frente. A criança começa a chorar, muito triste, porque lhe tiraram o lápis de cor. Queria pintar e queria aquele lápis.

É uma situação muito comum, muito prática, sobretudo com os mais pequeninos. Têm muito mais dificuldade em gerir, estão a aprender a gerir a propriedade e é natural, nessa fase do seu desenvolvimento, que as crianças queiram guardar, precisem de ter a sua propriedade e que lhes seja muito mais difícil partilhar. Devemos respeitar. Ao mesmo tempo, devemos trazer a consciência, falar sobre o assunto, quase repetir a situação:

“Tu tens este lápis e queres o lápis para ti. Estavas a pintar com os lápis e a tua irmã tirou-te o lápis e tu ficaste triste, não foi?”

Esta é uma primeira estratégia, uma primeira ferramenta prática para lidar com uma criança que está a sentir uma emoção e está a expressá-la.

A segunda fase consiste em não hiperfocar na emoção nem prolongar o conflito desnecessariamente, permitindo à criança processar o que sente e avançar. Em vez de ficarmos presos ao drama ou ao papel de juízes entre as partes, normalizamos a emoção em poucas palavras e redirecionamos o foco para a ação ou para uma alternativa prática. Trata-se de acolher em segundos e convidar à continuidade, dizendo, por exemplo: “É difícil quando nos tiram o que estamos a usar. Queres escolher outra cor para continuares o teu desenho ou preferes esperar um bocadinho até a tua irmã terminar?”

Ao fazê-lo, não estamos a desvalorizar a dor da criança, mas sim a evitar dar-lhe um peso excessivo que paralise a situação. Mostramos que a emoção foi vista e ouvida, mas que a vida e o brincar podem continuar sem que fiquemos reféns do impulso do momento.

No caso dos adultos, quando sentimos algo que nos incomoda, devemos refletir sobre o que estamos a sentir: porque é que estou a sentir isto? Estou a sentir isto, estou a sentir aquilo, aconteceu isto, aconteceu aquilo. Quase repetir a situação. Podemos até escrever, se for uma coisa muito forte, o que estamos a sentir, com alguma situação pessoal ou profissional. Escrever, repetir, rever. Muitas vezes isso vai levar-nos ao passado, a situações semelhantes em que nos aconteceu a mesma coisa e, muitas vezes, a emoção não é daquele momento, mas de todos os outros momentos juntos. E, quando são muitos momentos, a emoção fica desmesurada.

Da mesma forma, uma criança que se expressa de uma maneira que nos parece exagerada por uma situação como no exemplo anterior pode revelar que a situação já aconteceu tantas vezes que ela não suporta, ou o oposto – nunca aconteceu. “Nunca ninguém me tirou um lápis e hoje, de repente, alguém me tirou um lápis e eu não tolero isto.”

São as adaptações necessárias que os nossos filhos, que as nossas crianças, têm de viver. A vida é cheia de situações e pessoas que não fazem aquilo que queremos e que nos tiram coisas que queremos.

Não é certo nem errado pensarmos “aquela pessoa é má”, “isto é bom”, “não devia ter tirado”, “devia ter tirado”. Isso é irrelevante também na nossa vida pessoal, porque o que devemos ensinar as crianças a fazer, e nós também fazermos, é: o que é que esta situação me ensina? Como é que eu posso aprender mais sobre mim nesta situação? Como é que eu posso crescer um pouco mais? Como é que eu posso amadurecer?

O certo e errado, as fórmulas em casos como este, criam conflito e resistências internas – nossas e das crianças. Nós, como adultos, precisamos ser mais maduros do que elas. Se temos as emoções à flor da pele como uma criança tem, vai ser muito mais difícil conseguirmos lidar com as emoções que vão surgir em todo o processo educativo.

A autorregulação não nasce com a criança; é co-regulada pelo adulto. Quando nos desregulamos e reagimos ao mesmo nível do comportamento da criança, deixamos de ser o porto seguro de que ela precisa para aprender a acalmar-se. Por isso, a autorregulação no adulto começa na capacidade de fazer uma pausa, reconhecer o próprio estado interno e responder com intenção, em vez de reagir no impulso – permitindo-nos guiar a criança através da tempestade emocional em vez de nos juntarmos a ela. 

Ivone Apolinário
Coordenadora geral OMSN
(texto transcrito/adaptado de uma sessão parental)

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