Na educação contemporânea – incluindo a chamada educação alternativa ou inovadora – fala-se muito das características que devemos desenvolver nas crianças: criatividade, autonomia, pensamento crítico, liderança, inteligência emocional, capacidade de comunicação, espírito empreendedor, resiliência. Com a chegada da inteligência artificial, esta conversa intensificou-se. Pergunta-se: o que é que nos distingue das máquinas? O que é que devemos cultivar nas novas gerações para que sejam relevantes no futuro?
Fala-se de criatividade como o novo ouro, fala-se de originalidade, capacidade estratégica, pensamento complexo, autonomia, liderança, inovação, visão, disciplina, foco, produtividade, adaptabilidade.
Tudo isto são características valiosas. Mas há uma pergunta que raramente fazemos: são suficientes?
Imaginemos um ser humano da nossa história que possuía muitas destas qualidades. Era inteligente. Tinha capacidade de liderança. Era estratega. Tinha uma visão clara. Sabia comunicar e mobilizar massas. Era disciplinado. Tinha força de vontade. Era organizado. Tinha criatividade. Era original. Tinha autonomia. Tinha carisma. Cuidava da sua imagem. Era até, em certos períodos, vegetariano. Gostava de animais. Conseguia inspirar milhões.
Quem achas que era esse ser humano?
Chamava-se Adolf Hitler.
Então o que falhou?
Não faltaram competências. Não faltou inteligência. Não faltou liderança. Não faltou criatividade. Não faltou autonomia. Faltou algo muito mais simples e muito mais fundamental: bondade.
Faltou um coração aberto. Faltou a capacidade de reconhecer o outro como igual. Faltou amor.
Podemos analisar em detalhe as causas históricas, políticas e económicas. Podemos falar de contexto, de trauma coletivo, de ressentimento nacional. Tudo isso é relevante. Mas há um ponto essencial: ele acreditava numa ideologia. Foi condicionado por um sistema de crenças. E quando alguém acredita cegamente numa ideologia, começa a ver o mundo através de uma lente estreita.
Mas mesmo alguém condicionado por uma ideologia pode parar. Pode sentir. Pode perguntar-se: isto faz sentido? Isto é justo? Isto é humano?
Se no seu coração houvesse bondade, ele teria reconhecido que algo não estava certo. Teria sentido que aquilo não podia ser verdadeiramente bom.
O grande perigo não está apenas nas ideologias. Está na combinação entre ideologia e ausência de bondade. Entre crença rígida e coração fechado.
Hoje educamos crianças para serem criativas, autónomas, críticas, inovadoras. E isso é importante. Mas se não cultivarmos profundamente a bondade, a sensibilidade ao sofrimento do outro, a capacidade de ver o outro como parte de nós, podemos estar a formar pessoas altamente competentes e profundamente perigosas.
A inteligência artificial está a obrigar-nos a perguntar: o que é verdadeiramente humano?
Se a resposta for apenas criatividade, produtividade ou inteligência, então não aprendemos nada com a história. Porque todas essas qualidades podem existir sem humanidade.
Talvez o que realmente nos distingue seja a capacidade de amar. A capacidade de reconhecer que o mundo somos nós. A capacidade de fazer zoom out e perceber que cada ser humano faz parte do mesmo organismo.
Sem bondade, todas as competências podem tornar-se armas.
Com bondade, até uma única pessoa pode transformar o mundo.
Ivone Apolinário
