Em época de Páscoa, em que símbolos como a cruz de Cristo estão mais presentes, e depois de ter participado em mais um Retiro no Krishnamurti Centre, em Brockwood Park School, em Inglaterra, surgiu-me no pensamento a crucificação.
Hoje, crucificamos as figuras públicas quando não são politicamente correctas ou têm opiniões que não nos agradam, crucificamos líderes políticos quando estes tomam decisões das quais discordamos, crucificamos familiares que nos dizem verdades (ou mentiras!) inconvenientes, crucificamos até os nossos amigos e colegas de trabalho, quando eles crescem de formas que não esperávamos, quando escolhem caminhos que nos perturbam ou que simplesmente nos tornam invisíveis, quando deixam de nos confirmar a imagem que temos de nós mesmos, quando ousam dizer o que pensam em vez de dizer o que queremos ouvir, quando a sua simples presença nos lembra silenciosamente de algo que preferíamos não ver em nós.
Reza a história que Cristo, na cruz, olhou para baixo e viu os soldados romanos a dividirem entre si as suas vestes, disputando a sorte da túnica sem costura, tecida de uma só peça, que não queriam rasgar. Era tudo o que lhe restava de material no mundo, e eles repartiam-no como espólio. Cristo, do alto da cruz, disse então: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”
A cena encerra em si uma das imagens mais nuas da banalidade e inconsciência humana: aquele que fora chamado Rei dos Reis reduzia-se agora, aos olhos daqueles homens, a um monte de roupa a sortear, e eles, ocupados com o ganho imediato, não viam nem o homem nem a sua mensagem de amor e união, apenas o tecido, apenas a utilidade do que sobrava.
Discutimos opiniões sobre as guerras e cada um de nós, dependendo da propaganda à qual está mais susceptível, fica mais afectado emocionalmente com uma do que com outra. Cada um tem as suas causas preferidas e resistimos a ver o mundo como um todo e a observar os inúmeros focos de guerra que estão neste momento activos. Também não conseguimos ver que os problemas do mundo exterior, no colectivo, são uma projeção dos problemas no mundo interior de cada indivíduo. É uma visão assustadora perceber que somos responsáveis e que temos nas nossas mãos o poder de mudar, não o mundo, mas a nós mesmos. O mundo somos nós. Se passássemos mais tempo a olhar para a nossa própria vida, por efeito borboleta, a vida dos que nos rodeiam seria transformada, não porque os queremos mudar, não porque temos essa expectativa, mas precisamente porque não a temos, e ainda assim eles são inevitavelmente influenciados pelo que somos.
Não se pretende aqui assumir um lugar de superioridade moral, nem apontar o dedo a quem crucifica mais ou menos, porque esse gesto seria ele próprio uma forma de crucificação. O que se pretende é simplesmente olhar para o que temos em comum, para o que partilhamos enquanto seres humanos, as mesmas fragilidades, os mesmos medos, as mesmas tendências que nos fazem reagir antes de ver, julgar antes de compreender, condenar antes de sentir. Ninguém está fora disto. E talvez seja precisamente aí, no reconhecimento honesto desse terreno comum, que começa qualquer transformação real, não na perfeição que ninguém tem, mas na disposição de olhar juntos para aquilo que nos bloqueia, sem drama e sem culpa, com a seriedade e a leveza que esse trabalho exige.
Damos atenção à parte e temos dificuldades em ver o todo, pois assim foi a nossa educação, organizada em disciplinas, com memorização de conhecimentos e testes para comprovar se a nossa memória é boa ou não, e assim está organizada a sociedade: a medicina partida em especialidades que raramente dialogam entre si; a política, onde diferentes áreas são geridas de forma isolada, sem uma visão integrada do impacto das decisões na vida real das pessoas; a economia, que separa crescimento de bem-estar, produtividade de sentido, e muitas vezes ignora os limites ecológicos; a relação com a natureza, onde nos vemos como separados do ambiente, explorando recursos como se não fizéssemos parte do mesmo sistema vivo. E a educação, de novo, talvez o campo onde esta fragmentação mais dói, separada da vida que pretende preparar.
Crucificamos porque culpar dá-nos a tranquilidade de espírito de que alguém, em algum lugar, é culpado pelos problemas do mundo, e perdemos horas preciosas a sonhar com ideais impossíveis de alcançar sem tentativas de controlo da população com ditaduras mais ou menos explícitas.
Crucificamos porque nos sentimos os agentes da ética e da moral em tempos em que a religião no ocidente deixou de ter a importância de outros tempos.
Por outro lado, há os que voltam a agarrar-se a religiões, crenças e ideologias várias, estas cada vez mais subtis e específicas, rótulos que identificam aspectos muito particulares da personalidade, como forma de encontrar segurança em tempos de crise.
E tal como crucificamos, somos também crucificados.
Temos receio de nos expressar livremente pois, apesar de tal não ser proibido (ainda), existe uma tal crucificação massiva a acontecer onde quer que estejamos, que tudo o que dissermos pode ser usado por alguém, algures, contra nós. Por isso, decidimos, provavelmente de forma inconsciente, concordar com as vozes que se fazem ouvir mais alto e que são mais crucificadoras. Não são provavelmente a maioria, mas são vozes que nos assustam pois podem crucificar-nos aos olhos de todos.
Em tempos como estes penso se será possível juntar um punhado de gente madura (pessoas que já se cansaram suficientemente das suas próprias histórias para estarem dispostas a questioná-las, pessoas que conseguem sentar-se com o desconforto sem precisar de o resolver imediatamente, que conseguem ouvir sem se defender, discordar sem condenar) que se junte para olhar o sol que vai nascer, para ver o mar, e que nessa comunhão, essa gente possa olhar, sem julgamento (esta palavra tão gasta e incompreendida), o que É, o que acontece em nós, o bonito mas também o feio, pois quer queiramos ou não, todos temos tendências crucificadoras latentes em nós, pela natureza do cérebro e do pensamento que nos conta histórias nas quais tendemos a acreditar.
Todos nós carregamos a cruz da culpa, da condenação, e do orgulho e vaidade, que não são opostos mas dois lados da mesma moeda. Onde está um, o outro esconde-se. Talvez seja por isto que crucificamos, para retirar peso à nossa cruz, falhando em ver que só criamos mais peso nas condenações.
Pergunto-me se esse punhado de gente pode juntar-se para trabalhar em conjunto na educação das futuras gerações, e se terá a coragem, a seriedade e também a leveza, para enfrentar o maior crucificador de todos, que é sempre a si mesmo. E é esse que irá também crucificar os seus filhos, activa ou passivamente, pela ausência de presença e de verdade, de autenticidade no relacionamento.
Se existe mais do que vontade do ego, mas realmente capacidade para ver, para observar sem projectar nos outros as sombras que trazemos connosco, dos nossos condicionamentos, educação, crenças, ideias, genes, então talvez seja possível a nossa transformação e, por consequência, a educação de crianças sãs, que tragam sanidade a um mundo doente.
Se existe a possibilidade de simplesmente, no diálogo e na reflexão, nos conhecermos melhor, que é o mesmo que dizer vermo-nos melhor, sem tendências para nos pintarmos melhores ou piores, mas simplesmente vermos. Essa visão clara é assustadora e por vezes dolorosa, e parece ser a porta para a entrada numa outra dimensão, que vai além da dualidade e dos opostos.
Este texto não pretende trazer reacções negativas. Simplesmente percebi, recentemente, que a idealização das coisas positivas que queremos ver no mundo não nos está a trazer mais perto dos ideais que cada um de nós tem, enquanto que ver claramente aquilo que nos bloqueia pode trazer-nos a lucidez necessária à transformação, como ver que as nuvens tapam o céu azul. Ver é transformar.
E assim aprendemos juntos.
Ivone Apolinário
Coordenadora-geral da OMSN
