Retiro anual no Centro Krishnamurti, com visita à Brockwood Park School

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Este ano voltamos ao nosso local habitual de retiros anuais do Núcleo Cultural Krishnamurti, o Centro Krishnamurti em Hampshire, Inglaterra.

O Centro foi desenhado por Keith Critchlow, professor de arquitectura e um dos grandes estudiosos de geometria sagrada, com inspiração nas artes e ofícios, inserindo-se com sensibilidade num velho pomar de macieiras, casando beleza e função através do uso de materiais próprios da arquitectura rural de Hampshire, como pedra de sílex local, vigas de carvalho, telha de barro e tijolo artesanal. O próprio Krishnamurti participou na escolha destes materiais.

A intenção por detrás do desenho era referenciar aspectos do corpo humano e a sua relação com a geometria sagrada e a proporção divina. O edifício foi concebido como a figura de uma pessoa sentada de pernas cruzadas a olhar para a paisagem, em ligação directa com a frase “o mundo és tu, e tu és o mundo”. A estrutura desenvolve-se a partir da quiet room, uma sala circular com luz zenital, de linhas simples e paredes despojadas, com simetria e equilíbrio que se prolongam até às extremidades das duas alas de quartos.

Todos os outros espaços, sala de estar, zona de refeições, biblioteca, irradiam a partir dessa sala central como as pétalas de uma flor de lótus, e a luz entra por grandes janelas em todos os quartos, banhando o momento presente numa luminosidade que faz parecer o edifício além da forma.

O Centro dispõe de vinte quartos individuais com casa de banho privativa, simplesmente mas confortavelmente mobilados e todos com vistas sobre os terrenos envolventes, a que se juntam quatro apartamentos para duas pessoas. As proporções acolhedoras dos quartos contrastam com a amplitude das salas comuns, e a austeridade e o conforto convivem de forma que raramente se encontra noutros sítios. As refeições, todas vegetarianas com opção de base vegetal, estão incluídas, e os preços, acessíveis para o que oferecem, tornam o Centro disponível a quem verdadeiramente queira estar ali, sem o luxo desnecessário que distrai e sem a aspereza que afasta quem precisa de silêncio sem penitência.

Krishnamurti não chegou a ver o Centro concluído, mas esteve envolvido no desenho e nas características do edifício, tendo participado na escolha dos materiais e mostrado particular interesse pela localização e orientação da quiet room, que considerava o espaço mais importante de todo o Centro.

Como sempre, tivemos oportunidade de visitar a Brockwood Park School, uma casa aristocrata de estilo georgiano fundada por Krishnamurti como escola em 1969, rodeada de cerca de 16 hectares de bosque e campos verdes que se estendem até ao horizonte.

Esta escola tem este ano cinquenta alunos, com idades entre os 14 e os 19 anos, em regime residencial, vindos de várias partes do mundo, e o ambiente que se respira é rico, vivo e verdadeiramente internacional.

Fomos recebidos pela Maria do Mar, uma portuguesa, filha de Teresa Mendes, fundadora da Comunidade de Aprendizagem Florescer, na zona de Lisboa, que trabalha activamente na transformação da educação em escolas públicas. A mãe havia participado no curso Educar o Educador em Brockwood há mais de dez anos e considerou importante que a filha estudasse nesta escola, mas Maria do Mar resistiu até terminar o décimo segundo ano, altura em que a ideia amadureceu nela própria e ela acabou por passar por um criterioso processo de selecção até ser escolhida como estudante no ano lectivo 2025/2026.

Pedimos para conversar com ela e a escola brindou-nos com a possibilidade de almoçarmos com um grupo de estudantes e professores, alguns dos quais conseguiam comunicar em português, numa das suas salas nobres, esse tipo de divisões que as casas aristocratas inglesas guardam. A sala tem tectos altos, paredes de madeira trabalhada, e uma quietude de séculos que coexiste estranhamente bem com a juventude barulhenta que a habita.

No final do almoço, Maria do Mar e outro estudante levaram o grupo de participantes do retiro numa breve visita pela escola, onde pudemos percorrer a biblioteca, a cozinha onde os estudantes participam diariamente na sua rota de tarefas, os pavilhões e os claustros onde estão alojados, o magnífico pavilhão das artes, o estúdio de música, a horta generosa e bem cuidada, e assistir ainda aos preparativos para a noite informal, que acontece todas as sextas-feiras e onde os estudantes partilham livremente os seus talentos, música, poesia, teatro, o que cada um tiver para oferecer.

O tema do retiro este ano foi O Sentido da Liberdade:

“Não existe uma sociedade perfeita. E a sociedade não quer que o ser humano seja livre. Porque liberdade significa, segundo as normas sociais, desordem; a revolta é desordem; a revolução é desordem. Por isso, a sociedade proíbe essa liberdade. Mas o ser humano procura sempre a liberdade, embora apenas exteriormente, em relação à estrutura social. Assim, ele revolta-se contra a sociedade, mas não se revolta contra a estrutura psicológica interior que criou essa mesma sociedade. O verdadeiro radical, a verdadeira revolução, ocorre dentro do próprio ser humano, dentro da pele, e não dentro da estrutura da ordem social.” Excerto do documentário The Real Revolution, Parte 2.

Tivemos espaço para ver vídeos de Krishnamurti, para o diálogo, para caminhadas e reflexão individual, muito bem alimentados.

Viemos com o coração cheio, depois de termos passado por fases de questionamento e confusão, que são afinal o sinal de que algo se moveu, observando como o nosso próprio pensamento se assusta quando a sua narrativa é questionada.

É sempre bom ir para um retiro, remexer nas águas paradas da consciência e entregarmo-nos ao desconhecido, esse grande território que nos assusta precisamente porque não tem mapa. Preferimos normalmente a segurança da certeza, mas é no desconforto do não saber que qualquer coisa nova pode, eventualmente, nascer.

Pode saber mais sobre o Centro de Retiros aqui: krishnamurticentre.org.uk

Pode saber mais sobre a Escola aqui: brockwood.org.uk

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