O MUNDO SOMOS NÓS

Sobre Educação – Pais e Professores – 1ª parte

J. Krishnamurti

texto de J. Krishnamurti, extraído do livro “A Educação e o Significado da Vida”

A educação correcta começa com o educador, que tem de se compreender a si mesmo e estar liberto de padrões de pensamento; porque aquilo que ele é, é aquilo que dá. Se ele não foi correctamente educado, o que pode ele ensinar senão o mesmo conhecimento mecânico em que foi formado? O problema, portanto, não está na criança, mas, sim, nos pais e no professor; a questão está em educar o educador.

Se nós como educadores não nos conhecemos a nós mesmos, se não compreendemos o relacionamento com a criança, se a enchemos de informação para passar nos exames, como é que podemos criar um tipo novo de educação? O aluno está lá para ser guiado e ajudado; mas se o guia, o ajudante, for ele mesmo confuso e limitado, nacionalista e apenas teórico, então, naturalmente, o seu estudante vir a ser igual a ele, e a educação torna-se uma fonte de mais confusão e discórdia.

Se conseguirmos ver a verdade disto, perceberemos a importância de começarmos a educar-nos a nós mesmos correctamente. Preocuparmo-nos com a nossa própria reeducação é de longe muito mais importante do que afligirmo-nos com o bem-estar futuro e a segurança do jovem.

Educar o educador – isto é, o educador conhecer-se a si mesmo – é uma das mais difíceis tarefas, porque a maior parte de nós cristalizou-se dentro de um sistema de pensamento ou de um padrão de acção; entregámo-nos a uma qualquer ideologia, religião ou a um determinado padrão de comportamento. Ensinamos a criança o que pensar, e não como pensar.

Além disso, pais e professores estão a maior parte do tempo ocupados com os seus próprios conflitos e mágoas. Ricos ou pobres, a maioria dos pais está absorvida nas suas aflições e lutas pessoais. Não estão seriamente preocupados com a deterioração social e moral, mas apenas com o desejo de que os seus filhos sejam bem equipados para sobreviverem neste mundo. Estão ansiosos sobre os futuro dos seus filhos, desejando afincadamente que eles tenham uma educação adequada para chegarem a posições profissionais seguras ou que venham a ter um bom casamento.

Contrariamente àquilo em que geralmente se acredita, a verdade é que a maior parte dos pais não ama os seus filhos, embora digam o contrário. Se os pais amassem verdadeiramente os seus filhos, não dariam tanto ênfase à família e ao país por oposição ao todo, o que leva a divisões raciais e sociais entre os seres humanos e gera guerras e miséria. É realmente extraordinário ver pessoas tão rigorosamente preparadas para serem advogados e médicos tornarem-se pais sem qualquer formação para este tão importante trabalho.

De um modo geral, a família, com as suas tendências separativas, reforça o processo geral de isolamento, tornando-se, assim, um factor de deterioração no interior da sociedade. Só quando existe amor e compreensão é que as muralhas do isolamento se desmoronam, deixando a família de ser um círculo fechado, uma prisão ou um refúgio; só assim os pais estarão em comunhão, não apenas com os seus filhos mas também com os restantes seres humanos.

Absorvidos nos seus próprios problemas, muitos pais delegam nos professores as responsabilidades pelo bem-estar dos seus filhos; portanto, é importante que o educador ajude também na educação dos pais.

Deverá conversar com eles, explicando-lhes que o estado confuso do mundo é o reflexo da confusão de cada um deles. Chamará a atenção para o facto de que os avanços científicos não trarão, por si, uma mudança radical nos valores actuais; que o treino técnico, a que agora se chama educação, não concede ao homem a liberdade nem o torna mais feliz; e que condicionar o estudante a aceitar a sociedade actual não conduz à inteligência. Deverá dizer-lhes o que tem em vista para os seus filhos e como fazê-lo. Tem de ganhar a confiança dos pais, não através da autoridade de um especialista lidando com um ignorante, mas dialogando sobre o temperamento da criança, as dificuldades, as aptidões e outras coisas mais.

Se o professor se interessar realmente pelo jovem como indivíduo, os pais terão confiança nele. Neste processo, o professor estará a educar os pais e também a educar-se si mesmo, uma vez que também deles aprende. A educação correcta é um trabalho mútuo, que exige paciência, respeito e afeição. Professores esclarecidos numa comunidade esclarecida estudarão esta questão de como educar os jovens, ensaiando, com prudência, em conjunto com os pais conscientes algumas estratégias educativas.

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